terça-feira, 1 de abril de 2008

Desconstrução

Entrou no botequim como se fosse um pássaro
Pediu um “mé” que fosse bem mais aromático
Ergueu a aguardente como se fosse um lábaro
Os breves goles só lhe deixaram mais trêmulo

Bebeu a aguardente como se fosse o último
Gole de anis, licor de hortelã ou de pêssego

Olhava pra uma senhora se achando o máximo
Piscava e paquerava em gestos nada lógicos

Queria ainda que o tratassem como o único
Cliente, porque se dizia muito assíduo

Foi posto para fora e ficou estático
Lançou depoimentos altamente apócrifos
Gritou, esbravejou e tropeçou nas sílabas
Falou muita besteira sem nenhum escrúpulo
Perdeu todo seu respeito feito um decrépito
E atravessou a rua extremamente bêbado

Sentou no meio-fio e debulhou-se em lágrimas

Morreu anos depois com problemas no fígado.

2 comentários:

Luiz Coelho disse...

Este é ótimo! acho mto divertido.

Gustavo Fichter disse...

Olá Paulo Henrique,
Gostei deste "Desconstrução". Faz lembrar a bela música do Chico Buarque.
Abraços