terça-feira, 11 de novembro de 2008

Conto de criança

Desde muito pequeno, costumava brincar de ser vendedor. Me despertava muito interesse a idéia de trocar coisas por dinheiro. Eu sempre vasculhava a casa à procura de alguma coisa que fosse velha, que não tivesse mais uso, que meus pais não se importassem mais, ou que estivesse, simplesmente, esquecida em algum canto, para que eu pudesse usá-la em minhas brincadeiras de vendedor.
Lembro-me que, num desses dias em que eu futucava tudo na casa atrás de algo novo, achei um monte de argolas pequenas no meio de umas tralhas que ficavam num baú que tínhamos. Não sei de onde surgiram, mas estavam lá, sem ninguém para se intitular dono. Nem meu pai, nem minha mãe ponderaram a respeito das pequenas argolas, que passaram a me pertencer desde então.
Elas eram pequenas (pequenas o suficiente para que coubessem nos meus dedos também pequenos) e serviam como anéis. Eram bonitinhas, funcionavam mesmo muito bem como anéis.
Já que eu tinha bastante, me veio então a sagaz idéia de vendê-las para os meus amiguinhos da escola. Lembro-me que ninguém despertou muito interesse em adquirir meus anéis prateados, exceto o Leonardo.
Leonardo era um menino engraçado, um pouco alto para a sua faixa etária, meio desajeitado, moreno chocolate e tinha sempre os cabelos desarrumados. Ele sentava na carteira bem à minha frente, e sempre muito tagarela, vivia virado para trás a conversar comigo.

— Amendoim, o que é isso aí? Perguntou ele cheio de curiosidade, vendo o que eu tinha espalhado pela minha carteira.

E antes de qualquer risada ou espanto do caro leitor, era assim que ele me chamava, Amendoim, e não me perguntem o porquê, porque não faço a menor idéia do motivo do apelido.

— São anéis, respondi cheio de entusiasmo, vendo que ali eu poderia ter um propenso cliente. Estou vendendo. São 50 cruzeiros. Disse eu ao Leonardo.
— Coisa de menina! Retrucou ele.
— Coisa de menina nada, experimenta aí pra você ver.

Mesmo meio desconfiado, Leonardo pegou uma para experimentar. O meu medo era que as argolas não coubessem nos dedos dele, pois como eu já disse, Leonardo era um pouco maior para o padrão de tamanho dos meninos da nossa idade. Mas coube e ele gostou.

— Vou querer cinco! Disse ele todo garboso.

250 cruzeiros. Fiquei todo bobo. Era um ótimo lucro para um novo micro-empresário.
Fiquei esperando ansiosamente a hora do recreio, pois pretendia ter um verdadeiro banquete, como nunca havia tido antes; e convidar a Cíntia, que era a menina mais linda da escola, para lanchar comigo. Mas, infelizmente, antes do sinal do recreio bater, o meu melhor e único cliente, que antes parecia super satisfeito, agora queria seu dinheiro de volta.

— Não dá, não aceitamos devolução. Disse eu ao Leonardo, já com um discurso de mega-empresário.
— Amendoim, eu não quero mais, me dá o meu dinheiro e toma esses seus anéis! Retrucou ele com uma voz bem firme.

Bom, como vocês já sabem, Leonardo era um menino com um porte físico acima da média dos meninos da nossa idade, portanto, ele não teve que se esforçar muito para me convencer a devolvê-lo o dinheiro.

4 comentários:

Luiz Coelho disse...

valeu, dono de bar!

Pavitra disse...


estou aqui pensando sobre as propriedades do amendoim... rs

Paulo Henrique Motta disse...

Amendoim é naturalmente isento de colesterou, mas acho que este não sou eu. rs

sam disse...

Acho que amendoin é a sua cara!!!!!